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Pós-colheita do trigo em anos de El Niño: boas práticas para preservar a qualidade dos grãos


Brazil
October 6, 2026

Em anos de maior umidade, cuidados com recepção, secagem e armazenamento são ainda mais importantes para preservar a qualidade dos grãos e reduzir perdas no pós-colheita do trigo

 

Pós-colheita do trigo em anos de El Niño: boas práticas para preservar a qualidade dos grãos


Pontos-chave

  • Umidade acima de 13% eleva os riscos de deterioração, perda de PH e ação de patógenos;
  • A recepção e amostragem permitem conhecer cada lote e definir o manejo pós-colheita adequado;
  • A pré-limpeza remove impurezas que retêm umidade e favorece uma secagem mais uniforme;
  • A secagem reduz e uniformiza a umidade, mas exige controle da temperatura da massa de grãos;
  • Temperaturas excessivas na secagem podem danificar os grãos e alterar a qualidade da farinha;
  • Monitorar temperatura, umidade, pragas e fungos ajuda a preservar a qualidade durante o armazenamento;
  • Em anos úmidos, os cuidados no pós-colheita são decisivos para reduzir perdas e manter a qualidade.

 

Após a colheita do trigo, decisões relacionadas à pré-limpeza, secagem e armazenamento dos grãos podem determinar se o potencial construído ao longo da safra será preservado ou perdido.

Em anos úmidos, a atenção a esses processos precisa ser ainda maior. Nessas condições, pequenas falhas no pós-colheita podem comprometer características importantes dos grãos, como o peso hectolítrico (PH), falling number, sanidade e muitas outras, impactando diretamente a qualidade da matéria-prima e, consequentemente, a rentabilidade do produtor.

Por isso, em safras marcadas pela presença do fenômeno El Niño no Sul do Brasil, os cuidados com os processos de pós-colheita do trigo devem ser redobrados.

 

Principais fatores que afetam a conservação dos grãos de trigo após a colheita

A conservação dos grãos de trigo após a colheita pode ser afetada por alguns fatores, como a presença de impurezas, a ocorrência de pragas e o desenvolvimento de fungos. Entre eles, porém, a umidade se destaca como um dos principais pontos de atenção, de acordo com Leonardo Frosi, agrônomo e supervisor de produção de sementes da GDM Seeds.

Quando os grãos são armazenados com umidade acima de 13%, que é o nível recomendado, aumentam os riscos de deterioração, redução do PH e desenvolvimento de patógenos nocivos à qualidade da matéria-prima.

Entenda como a genética e o manejo ajudam a reduzir os riscos de germinação e redução de PH do trigo

— Quando a massa de grãos apresenta umidade acima do ideal, cria-se um ambiente favorável para o desenvolvimento mais rápido de patógenos, o que pode resultar na perda de qualidade. Além disso, com o excesso de umidade, os grãos passam a queimar energia, ao invés de conservá-la, para iniciar o processo de germinação. Nesse processo, há o consumo do amido armazenado e, consequentemente, a redução do peso e da qualidade dos grãos — explica.

Segundo Gabriela Santetti, doutora em Ciência dos Alimentos e supervisora de qualidade da GDM Seeds, o PH nada mais é do que a quantidade de farinha presente no grão. Um menor PH significa, portanto, uma menor presença de amido e, consequentemente, menor extração de farinha pela indústria.

— Quando o rendimento da farinha é reduzido, pode ocorrer um escurecimento da farinha, característica indesejada pela indústria, que busca obter um produto com maior clareza. Além disso, a redução do aproveitamento dos grãos pode comprometer a disponibilidade de componentes importantes para a produção de pães, como o amido e as proteínas do glúten, refletindo na qualidade final do produto  — explica.

 

Quais são as boas práticas de pós-colheita do trigo?

Em anos úmidos, colher o trigo se torna um desafio ainda maior. Além de a colheita ser frequentemente realizada com níveis de umidade acima do ideal, as condições de campo podem resultar em uma lavoura mais desuniforme em comparação aos anos secos, dificultando a obtenção de um lote homogêneo.

Embora a dessecação pré-colheita possa contribuir para aumentar a uniformidade da lavoura e facilitar a operação, é no pós-colheita que uma série de medidas precisam ser adotadas para reduzir os riscos de perda de qualidade.

Nesse cenário, cada etapa tem sua importância. Um bom processo de recepção, amostragem e classificação permite conhecer as características do lote e direcionar seu manejo.

Na sequência, a pré-limpeza, a secagem e o armazenamento adequado contribuem para reduzir a presença de agentes indesejados, controlar a umidade e preservar a qualidade dos grãos ao longo do período de armazenagem.

 

Recepção e amostragem: como avaliar a qualidade do lote de trigo?

Para os cerealistas, a recepção e a amostragem dos grãos representam o primeiro passo do pós-colheita do trigo. É nessa etapa que as características do lote são avaliadas e que se obtêm informações importantes para definir como ele deverá ser manejado posteriormente.

Em anos secos, os produtores atendidos pelo cerealista geralmente têm maior facilidade para escalonar a colheita e entregar a produção em diferentes momentos.

Já em anos úmidos, a janela de colheita tende a ser mais restrita, fazendo com que a chegada dos lotes se concentre em poucos dias e aumente a demanda sobre as estruturas de recebimento.

Por isso, a agilidade e eficiência em todas as etapas do processo, especialmente na recepção, são fundamentais para garantir o bom desempenho da operação e o sucesso do negócio do cerealista na safra.

— Nesta etapa, é preciso muita atenção por parte do cerealista, porque, de forma alguma, um trigo de tipo 1 pode ser misturado com um trigo de tipo 2. Também é necessário separar o trigo seco do trigo úmido. Caso contrário, todo o lote pode ter sua umidade elevada, o que exigirá um maior consumo de energia durante a secagem. Por isso, é fundamental contar com diferentes espaços para armazenar e manejar cada lote de acordo com suas características. A recepção, a amostragem e a segregação inicial do trigo são, portanto, etapas que determinam todo o trabalho posterior do cerealista — ressalta.

Dessa forma, conhecer a qualidade e as características de cada lote recebido é fundamental para direcionar adequadamente os processos de pré-limpeza, secagem e armazenamento.

 

Pré-limpeza do trigo: por que essa etapa é importante?

Após a recepção e a avaliação inicial, os grãos seguem para a etapa de pré-limpeza. Ela é responsável por separar as impurezas dos grãos, favorecendo uma secagem mais uniforme e eficiente na sequência.

— Durante a pré-limpeza, ao retirarmos restos de palha, grãos quebrados, grãos ardidos e outras impurezas, eliminamos os materiais que mais retêm umidade no lote e possibilitamos um processo de secagem mais homogêneo e eficiente — comenta Frosi.

 

Secagem do trigo: como reduzir a umidade sem perder qualidade?

Após passarem pela limpeza e pela retirada de impurezas, os grãos são direcionados para uma das principais etapas da operação: a secagem.

Esse processo tem como objetivo reduzir e uniformizar a umidade do lote, condição fundamental para preservar a qualidade dos grãos durante o armazenamento. Em anos úmidos, a secagem ganha ainda mais importância, já que é comum que a colheita ocorra com teores de umidade acima dos níveis considerados ideais.

— O nível padrão de umidade aceito pelos cerealistas sem a aplicação de descontos ao produtor é de 13%. Lotes com umidade acima desse valor costumam sofrer redução no preço pago, pois precisam passar por um processo de secagem que demanda mais energia e, por consequência, reduz a margem de lucro do cerealista. Em uma safra desafiadora, como a de 2026, será comum o produtor colher o trigo com níveis de umidade entre 13% e 15% — destaca.

Além de controlar a umidade, é necessário atenção à temperatura utilizada durante a secagem. Para o trigo, a temperatura do processo pode variar entre 40 ºC e 60 ºC, mas a temperatura da massa de grãos não deve ultrapassar 40 ºC.

O controle é importante para evitar danos à qualidade fisiológica dos grãos e às características da farinha.

— Fisiologicamente, temperaturas excessivas durante a secagem podem favorecer a ocorrência de grãos quebrados, o que pode resultar em perdas posteriormente — menciona Frosi.

Além de prejudicar a qualidade fisiológica dos grãos, as altas temperaturas de secagem também podem comprometer a qualidade da farinha que será utilizada pela indústria moageira.

Conforme Santetti, a utilização de temperaturas acima das recomendadas podem provocar alterações nas proteínas do glúten, afetando características importantes para a panificação.

— Quando o processo de secagem é muito acelerado e utiliza temperaturas acima do recomendado, pode ocorrer a desnaturação parcial das duas principais proteínas do glúten, a gliadina e a glutenina. A glutenina, responsável pela força da farinha e por características como volume, textura e maciez dos pães, é especialmente sensível a temperaturas elevadas, desnaturando-se com facilidade — pontua.

Como consequência da desnaturação da glutenina, a farinha pode apresentar um baixo valor de P/L (relação tenacidade por extensibilidade), indicando um desequilíbrio dessas características e podendo deixá-la de fora do padrão ideal para a indústria de panificação.

 

Armazenamento do trigo: como preservar a qualidade dos grãos?

O mesmo cuidado com altas temperaturas presente durante a secagem precisa acompanhar o cerealista ao longo do armazenamento dos grãos.

Afinal, a redução da umidade na secagem não elimina a necessidade de monitoramento, pois as condições da massa de grãos podem se alterar ao longo do tempo.

Por isso, é necessário realizar monitoramentos periódicos para acompanhar a temperatura e a umidade dos grãos, além de verificar a ocorrência de pragas e fungos que possam comprometer a conservação e a qualidade do lote.

— É preciso garantir um silo limpo, esterilizado de pragas e fungos de armazenamento e sem a presença de goteiras, que, por sua vez, podem aumentar a umidade e a temperatura da massa de grãos, contribuindo para perdas na qualidade do lote — afirma Frosi.

Um armazenamento inadequado pode comprometer totalmente a qualidade do grão de trigo produzido ao longo da safra.

Como aponta Santetti, “o agricultor produz um trigo X e, se ele não for bem armazenado, vende um produto Y”.

 

Cuidados pós-colheita ajudam a preservar a qualidade do trigo

Preservar a qualidade do trigo durante o pós-colheita exige atenção a cada etapa do processo. Em anos úmidos, esse cuidado se torna ainda mais importante para reduzir os riscos de perda de qualidade.

Conhecer as características de cada lote, desde a recepção, permite direcionar corretamente as etapas de pré-limpeza, secagem e armazenamento.

Assim, os cuidados adotados após a colheita ajudam a garantir que a qualidade construída ao longo de toda a safra seja mantida até a comercialização e o processamento dos grãos.

 



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Published: October 13, 2026


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